"Uma aranha fez sua teia no canto do meu escritório. Eu a descobri ontem, e com a minha vassoura, tratei de me livrar dela. Teias de aranhas são sinais de descaso e eu não queria que aqueles que me visitassem pensassem mal de mim. Mas hoje ela está no mesmo lugar. Durante a noite refez a sua teia. Acho que ela gostou do lugar, me perdoou, e confia na minha compreensão. Compreendi, e decidi que ela vai ser a minha companheira".
Embora ela não saiba falar ela me fez pensar. Confesso que a aranha me fascinou. Primeiro, por aquilo que vejo. Lá está ela, segura e feliz, pendurada sobre o vazio. Não existe hesitação alguma nos seus passos. Suas longas pernas se movem sobre os finos fios de sua teia com tranquila precisão, como se fossem dedos de um violinista dançando sobre as cordas. Sua teia é coisa frágil, feita com fios quase invisíveis. E no entanto, é perfeita, simétrica, bela, perfeitamente adequada ao seu propósito. Mas o fascínio tem a ver com aquilo que não vejo e só posso imaginar. Eu não tive a sorte de ver o seu primeiro movimento, o movimento que foi o início de sua arquitetura flutuante, o salto no abismo... Imagino aquela criaturinha quase invisível, sua patas coladas à parede. Ela vê as outras peredes, tão distantes, e mede os espaços vazios ... E só pode contar com uma coisa pra o trabalho incrível que está para ser iniciado: um fio, ainda escondido dentro de seu corpo. E então, repentinamente, um salto sobre o abismo e o universo começa a ser criado...
Acho que a aranha me fez pensar, por ser ela uma metáfora de mim mesmo. Eu também quero construir uma teia sobre o vazio. Só que meu mundo tem que ser construído com um material ainda mais etéreo que o fio, tão etéreo que alguns chegaram a compará-lo ao vento. O mundo humano é construído com palavras. Como dizem os textos sagrados: "No princípio de todas as coisas está a Palavra..." E, à semelhança da aranha, é dentro do corpo que a palavra é gerada. É ali, no caldeirão mágico do corpo, que se processa a transformação alquímica de palavras em carne. Fico a imaginar se Nietzsche não estava também obeservando uma aranha ao dizer que o homem é "uma corda sobre o abismo". (...)
Mas a aranha é mais feliz do que nós, pois ela já traz, escrita no seu corpo, a receita para o evento fantástico. A receita, ela a recebeu como dádiva da natureza, ao nascer. O seu corpo sabe, o seu corpo se lembra, mas nós moramos no esquecimento. Não sabemos, não lembramos. Como Eliot o disse, sabemos as muitas palavras mas ignoramos a Palavra.
Ouvir as "Variações Goldberg", de Bach, é um dos prazeres a que gosto de me entregar. É uma obra de arte sólida, terminada, uma estrutura perfeita. Nela não existe nada de supérfluo, nenhuma adiposidade, nenhum fio solto, nenhum som desnecessário. É como deveria ser. Como a teia da aranha...
E no entanto, existe uma vazio de silêncio em volta da música de Bach, um vazio muito maior do que aquele à volta da teia. A aranha, na verdade, não inventou coisa alguma. Ela só fez tocar de novo um tema que vem sendo repetido, sem variações, através dos milênio, por todas as aranhas iguais a ela.
Quando ela se lançou sobre o vazio ela já sabia, de cor a partitura que estava escrita em seu corpo. Mas as "Variações de Goldberg" são uma palavra nova, que nunca tinha sido ouvida antes. Bach teve que ouvi-la primeiro, tocadas por um Estranho, dentro do silêncio do seu corpo. Ela vieram como o vento, como uma corda sobre o abismo, os fios soltos dos sons sendo trançados, num tema único, e assim a teia musical foi tecida.
"Creatio ex nihilo" - "criação que emerge do nada".
Rubem Alves